sábado, 1 de novembro de 2025

Você ainda vive em mim. Vive no belo céu azul das manhãs. Vive no tempo nublado que eu adoro. Vive nas noites mansas. Vive no dia chuvoso. Vive sempre que eu respiro.
 
Você ainda mora em mim. Mora nos meus olhos verdes. Mora na maneira melosa de ver a vida bela. Mora na minha vontade de estar melhor. Mora na minha procura pelo melhor. Mora nas grandiosas vontades de conhecer o mundo. E nas pequenas, de só observar o explendor do pôr do sol. Mora no barulho do estalo dos nossos selinhos, que agora é só silêncio. Mora nos beijos que guardei pra você. E nos abraços que meu coração tanto anseia, só para estar perto do seu. Mora no aperto que dou no meu travesseiro de manhã achando que é você ali comigo.

Você existe nas minhas vontades. Em todas elas. Você existe na minha melhor versão e também na pior. Existe na vontade de sempre estar na minha melhor versão. Você existe no desejo que eu menos compreendo: de partilhar tudo de mim com alguém. Existe no anseio de abrir todas minhas portas e janelas para a vida. Existe na curiosidade de sair da minha caverna.
 
Você existe na minha vontade de existir. Antes, eu sobrevivia.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Eu frequentemente tenho dito adeus, mas eu nunca vou embora. Eu não sei o que acontece, mas eu simplesmente não tenho forças para avançar. Preso nesse ciclo vicioso, continuo fazendo as mesmas coisas. Tive forças para alterar as coisas por seis meses. A vida não facilitou, mas eu consegui me desprender da bebida e dos pensamentos. Eu cuidei de mim, fui à academia, melhorei minha alimentação, estudei e tentei. Tentei fazer melhor, tentei me cuidar e esperei que a vida melhorasse. 

Eu pude ver a luz no fim do túnel e pude sentir quando meus pés deixaram de experimentar a terra molhada do fundo do poço. Mas eu fraquejei. Eu deixei me enfraquecer pelas memórias do passado. A cabeça da cobra encontrou seu rabo e tudo voltou ao seu início. Eu não pude me despedir do passado e o que estava iniciando pareceu novamente com o início do passado.

A bebida voltou. Mas dessa vez não tem uma falsa felicidade. Desta vez, é só a tristeza e a dor de tudo que me foi tirado quando o meu eu ébrio ganha tempo de tela. Eu senti a falta de tudo aquilo que já tive e deixei escapar. Eu senti o ciclo reiniciar. Esse ano me devolveu o poder da observação. - Será que toda essa dor vem apenas do fato de eu estar conseguindo enxergar a realidade?

Eu tenho dito também que estou pronto para abrir mão de qualquer coisa, desde que eu consiga chegar aonde almejo. A vida tomou como desafio? Me enfraqueceu apenas para que eu demonstre que realmente quero algo?

Quando foi a última vez que realmente quis algo?

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Não importa o quanto eu tente, nada parece o suficiente.
Não importa o quanto eu me cuide, os resultados param de chegar e parece a todo momento que eu estou andando para trás.
Não importa o quanto eu treine, aquele 1kg a mais no supino parece que nunca vai chegar.
Não importa o quanto eu me esforce estudando, parece que meu esforço nunca é o suficiente e que nunca irei ser bom em nada.
Não importa quantos currículos eu envie, uma resposta nunca chega. E quando chega, é não. E quando é sim, acaba se tornando um não também após uma entrevista que só serviu para expor o quanto eu não era o suficiente para a vaga.
Não importa o quanto eu pare de beber, eu sempre vou ser só o cara perfeito para tomar uma gelada numa sexta à tarde.
Não importa quantas séries, filmes, músicas e conhecimentos aleatórios eu tenha, parece que nunca vou suficiente para que alguém se interesse por mim.
Não importa o quanto eu tente, me esforce e dê o meu melhor, minha vida parece nunca caminhar. Parece emperrada. Simplesmente não vai.
Não importa o quanto eu queira me mudar para algum lugar em que ninguém me conheça, isso nunca vai acontecer. A vida simplesmente não me quer feliz. Não me quer recomeçando. Está só me cedendo a grande merda de oportunidade de estar vivo.
Não importa o quanto eu odeie a vida e as forças do universo ou qualquer divindade, eu só pareço um vírus sem propósito que o antivírus do computador deixou passar e que não faz absolutamente nada de ruim ou de bom.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Se eu não mudar, eu perco

Um tempo atrás eu li a seguinte frase em algum lugar: "se eu não mudar, eu perco". Ao passo que essa frase se fundia com meus pensamentos, eu notei uma outra frase escrita num muro na rua onde passo todos os dias para ir à academia: "si você não muda nada muda" (pessoalmente sou muito fã de erros de grafia em protestos, causa um impacto e tanto).

Posso dizer que não consigo mensurar o quanto eu tenho perdido. Se puxo na memória, me lembro bem que em 2012 eu ganhei. Ganhei muito. Posso me considerar um campeão. Em 2013, creio que começaram os empates. Sabe como é, né? Acomodação do campeão. Em 2014 eu comecei a perder. São três mil  seiscentos e cinquenta e sete dias perdendo. No início eu não entendia. Não sabia que aquilo tudo era derrota. Mas eu estou sendo derrotado, sabendo disso ou não.

Quando me dei conta de que tudo que tenho feito nos últimos dez anos é ser derrotado, eu me peguei numa pergunta profunda e aterrorizante: o que eu tenho para perder mesmo? Eu evitei pensar sobre isso por um tempo. Sempre que me ocorria tentar entender minhas perdas, eu simplesmente não me permitia. Depois de um tempo fui absorvendo cada derrota dos últimos dez anos e posso dizer... não foi fácil.

Eu poderia listar todas as minhas perdas aqui. Algumas amizades, o amor da minha vida, oportunidades de mudar de vida, cidade ou país, dinheiro, objetos, animais, uma jaqueta que eu amava muito, a vontade de viver e por aí vai. Uma infinidade de coisas.

Por que eu me perdi? Essa é a pergunta principal. Eu entrei numa espiral sem fim onde eu não me achava mais. Eu me separei de tudo que me fazia ser eu mesmo. Posso olhar fotos ou ouvir pessoas me dizerem como eu era. Eu simplesmente não consigo me achar dentro de mim. Perdi muitas memórias de quem eu era. Todos somos mutáveis, mas eu não consigo achar minha essência. Eu tenho me guiado no caminho que eu acho que eu tomaria. É como se eu fosse um copiloto de mim mesmo esperando o meu piloto me encontrar. Ou será que eu sou o piloto fazendo a vez de copiloto?

Eu cansei de perder e estou pronto para sacrificar qualquer coisa que me impeça de voltar a ganhar. Se eu não mudar, nada muda. Se eu não mudar, eu perco.


domingo, 10 de setembro de 2023

 Às vezes eu penso que simplesmente morrer seria bom. Do nada pá: morri. Mas não sei. Eu sou um pouco espírita e, na minha concepção, desgostar da dádiva de viver se assemelha um pouco ao suicídio (e sabemos que em qualquer religião e no agnosticismo/ateísmo isso não é uma coisa boa). Então eu só estou lá.

(...)

Isso normalmente daria um texto completo (até porque eu já havia escrito em minha mente e o perdi), mas estou um pouco bêbado nessa noite quente que não me lembro bem a estação. 


Mikhail Levinski, noites de quase verão

sexta-feira, 10 de março de 2023

Eu te esperei. Te esperei das mais diversas formas. Esperei que você chegasse. Esperei que você ficasse. Esperei que você me quisesse. Esperei que você quisesse ficar. Esperei que você voltasse. Esperei pela sua mensagem. Esperei pra ouvir tua voz. Esperei te ver. Esperei te tocar.

Ao passo que eu esperava, eu me animava quando você estava. Nas poucas vezes que estava. E no pouco que estava, eu queria que estivesse mais. Queria te tatear mais. Como um livro novo que você começa a ler e fica imerso rapidamente, eu queria passar minhas mãos por você, sentir teu cheiro, te folhear. Te consumir mais rápido e mais profundamente. O quanto desse. O quanto nos bastasse.

Queria olhar no fundo dos seus olhos e te dizer algo. Algo que nem mesmo eu sei o que é. Você me causa euforia. Às vezes eu não sei o que dizer ou como agir. Não sei se deveria ser ofensivo ou te deixar ganhar campo. Só sei que te esperei. E te esperei...

Isso tudo ao mesmo tempo que é fácil, é difícil. É complicado. Não tem muita lógica. Não tem caminho. Estamos aqui e não estamos. Você não está. Depois não estou. E depois surgimos novamente, na promessa de não estarmos. No adeus que não é adeus. No fica só hoje. Mas não quero só hoje. Não assim. Sonhei com sua pele na minha. E com seu beijo gelado. E com seus dedos contornando minha sobrancelha, meu rosto, meus lábios. Com seus dedos se entrelaçando com os meus. E ficávamos. Mas era só sonho. Eu ficava. No fim só.


sábado, 25 de fevereiro de 2023

Interior

Eu sonhei que escrevia sobre uma garota. 

Era uma garota que eu não conheço. Não sei seu nome ou o seu rosto. Não sei como se veste ou o que gosta de ouvir. Eu também não me lembro exatamente o que escrevi. Entreguei o texto à uma professora que me deu um nove e me disse:

- Muito bem, Mikhail. 

Não posso dizer também se escrevi minhas percepções sobre a garota ou se ela havia me confidenciado algo.

Eu contei como ela se sentia sufocada nos últimos dias (tempos). Não se sentia sufocada pelos outros, mas por si mesma. Era mais como se seu próprio corpo a sufocasse. Sentia a garganta fechada, como se suas próprias mãos a estivessem enforcando. Mas não lhe faltava o ar, faltava força para expulsar algumas palavras. E gritar. Gritar a plenos pulmões. Gritar qualquer coisa, apenas para aliviar o peso de algum fardo.

Não me parece que ela carregava algo obscuro. Um segredo que pudesse acabar com sua vida (ou de alguém). Não. Acho que no fim se tratava de um acúmulo. O simples acúmulo de se viver. De se viver dia após dia na indiferença que a vida nos reserva. Um dia sem alguém perguntar como ela estava. Mais um outro dia sem sequer a olharem, seja como ser humano ou qualquer outra coisa. Já não se lembrava da última vez que a olharam com ternura. Se ela se lembrava do toque aveludado dos lábios de alguém que amara? Se esquecera da doçura do amor há tempos. Ou do leve enjoo que as borboletas apaixonadas lhe causavam.

Mas se lembrava diariamente das mãos em sua garganta e de seu espírito alvoroçado, que se debatia constantemente na esperança de criar um oportunidade em que pudesse finalmente gritar. Talvez esse ciclo infinito de dias inteiros sufocada a tenha feito ser mais reativa. Sempre alerta aos sinais e cansada demais para libertar sua fala.  

Em alguns dias sente como se o mundo desmoronasse sob sua cabeça, tal qual uma tragédia vinda das águas de março que fecham o verão. Em outros dias, sentia a infinita inquietude do seu ser. Sentia como se estivesse sozinha, deitada em um barquinho que flutuava em águas verdes bem cristalinas. Quase podia ouvir o silêncio sussurrar as palavras que tanto quer dizer.

Eu me vejo na garota. Sinto o seu sufoco e partilho as palavras que não saem. A vontade do silêncio. A falta dos meus olhos me olharem com ternura. A fraqueza de não deixar o caos gritar.