"Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito." Machado de Assis
domingo, 15 de dezembro de 2024
sexta-feira, 3 de maio de 2024
domingo, 7 de janeiro de 2024
Se eu não mudar, eu perco
Um tempo atrás eu li a seguinte frase em algum lugar: "se eu não mudar, eu perco". Ao passo que essa frase se fundia com meus pensamentos, eu notei uma outra frase escrita num muro na rua onde passo todos os dias para ir à academia: "si você não muda nada muda" (pessoalmente sou muito fã de erros de grafia em protestos, causa um impacto e tanto).
Posso dizer que não consigo mensurar o quanto eu tenho perdido. Se puxo na memória, me lembro bem que em 2012 eu ganhei. Ganhei muito. Posso me considerar um campeão. Em 2013, creio que começaram os empates. Sabe como é, né? Acomodação do campeão. Em 2014 eu comecei a perder. São três mil seiscentos e cinquenta e sete dias perdendo. No início eu não entendia. Não sabia que aquilo tudo era derrota. Mas eu estou sendo derrotado, sabendo disso ou não.
Quando me dei conta de que tudo que tenho feito nos últimos dez anos é ser derrotado, eu me peguei numa pergunta profunda e aterrorizante: o que eu tenho para perder mesmo? Eu evitei pensar sobre isso por um tempo. Sempre que me ocorria tentar entender minhas perdas, eu simplesmente não me permitia. Depois de um tempo fui absorvendo cada derrota dos últimos dez anos e posso dizer... não foi fácil.
Eu poderia listar todas as minhas perdas aqui. Algumas amizades, o amor da minha vida, oportunidades de mudar de vida, cidade ou país, dinheiro, objetos, animais, uma jaqueta que eu amava muito, a vontade de viver e por aí vai. Uma infinidade de coisas.
Por que eu me perdi? Essa é a pergunta principal. Eu entrei numa espiral sem fim onde eu não me achava mais. Eu me separei de tudo que me fazia ser eu mesmo. Posso olhar fotos ou ouvir pessoas me dizerem como eu era. Eu simplesmente não consigo me achar dentro de mim. Perdi muitas memórias de quem eu era. Todos somos mutáveis, mas eu não consigo achar minha essência. Eu tenho me guiado no caminho que eu acho que eu tomaria. É como se eu fosse um copiloto de mim mesmo esperando o meu piloto me encontrar. Ou será que eu sou o piloto fazendo a vez de copiloto?
Eu cansei de perder e estou pronto para sacrificar qualquer coisa que me impeça de voltar a ganhar. Se eu não mudar, nada muda. Se eu não mudar, eu perco.
domingo, 10 de setembro de 2023
Às vezes eu penso que simplesmente morrer seria bom. Do nada pá: morri. Mas não sei. Eu sou um pouco espírita e, na minha concepção, desgostar da dádiva de viver se assemelha um pouco ao suicídio (e sabemos que em qualquer religião e no agnosticismo/ateísmo isso não é uma coisa boa). Então eu só estou lá.
(...)
Isso normalmente daria um texto completo (até porque eu já havia escrito em minha mente e o perdi), mas estou um pouco bêbado nessa noite quente que não me lembro bem a estação.
Mikhail Levinski, noites de quase verão
sexta-feira, 10 de março de 2023
Eu te esperei. Te esperei das mais diversas formas. Esperei que você chegasse. Esperei que você ficasse. Esperei que você me quisesse. Esperei que você quisesse ficar. Esperei que você voltasse. Esperei pela sua mensagem. Esperei pra ouvir tua voz. Esperei te ver. Esperei te tocar.
Ao passo que eu esperava, eu me animava quando você estava. Nas poucas vezes que estava. E no pouco que estava, eu queria que estivesse mais. Queria te tatear mais. Como um livro novo que você começa a ler e fica imerso rapidamente, eu queria passar minhas mãos por você, sentir teu cheiro, te folhear. Te consumir mais rápido e mais profundamente. O quanto desse. O quanto nos bastasse.
Queria olhar no fundo dos seus olhos e te dizer algo. Algo que nem mesmo eu sei o que é. Você me causa euforia. Às vezes eu não sei o que dizer ou como agir. Não sei se deveria ser ofensivo ou te deixar ganhar campo. Só sei que te esperei. E te esperei...
Isso tudo ao mesmo tempo que é fácil, é difícil. É complicado. Não tem muita lógica. Não tem caminho. Estamos aqui e não estamos. Você não está. Depois não estou. E depois surgimos novamente, na promessa de não estarmos. No adeus que não é adeus. No fica só hoje. Mas não quero só hoje. Não assim. Sonhei com sua pele na minha. E com seu beijo gelado. E com seus dedos contornando minha sobrancelha, meu rosto, meus lábios. Com seus dedos se entrelaçando com os meus. E ficávamos. Mas era só sonho. Eu ficava. No fim só.
sábado, 25 de fevereiro de 2023
Interior
Eu sonhei que escrevia sobre uma garota.
Era uma garota que eu não conheço. Não sei seu nome ou o seu rosto. Não sei como se veste ou o que gosta de ouvir. Eu também não me lembro exatamente o que escrevi. Entreguei o texto à uma professora que me deu um nove e me disse:
- Muito bem, Mikhail.
Não posso dizer também se escrevi minhas percepções sobre a garota ou se ela havia me confidenciado algo.
Eu contei como ela se sentia sufocada nos últimos dias (tempos). Não se sentia sufocada pelos outros, mas por si mesma. Era mais como se seu próprio corpo a sufocasse. Sentia a garganta fechada, como se suas próprias mãos a estivessem enforcando. Mas não lhe faltava o ar, faltava força para expulsar algumas palavras. E gritar. Gritar a plenos pulmões. Gritar qualquer coisa, apenas para aliviar o peso de algum fardo.
Não me parece que ela carregava algo obscuro. Um segredo que pudesse acabar com sua vida (ou de alguém). Não. Acho que no fim se tratava de um acúmulo. O simples acúmulo de se viver. De se viver dia após dia na indiferença que a vida nos reserva. Um dia sem alguém perguntar como ela estava. Mais um outro dia sem sequer a olharem, seja como ser humano ou qualquer outra coisa. Já não se lembrava da última vez que a olharam com ternura. Se ela se lembrava do toque aveludado dos lábios de alguém que amara? Se esquecera da doçura do amor há tempos. Ou do leve enjoo que as borboletas apaixonadas lhe causavam.
Mas se lembrava diariamente das mãos em sua garganta e de seu espírito alvoroçado, que se debatia constantemente na esperança de criar um oportunidade em que pudesse finalmente gritar. Talvez esse ciclo infinito de dias inteiros sufocada a tenha feito ser mais reativa. Sempre alerta aos sinais e cansada demais para libertar sua fala.
Em alguns dias sente como se o mundo desmoronasse sob sua cabeça, tal qual uma tragédia vinda das águas de março que fecham o verão. Em outros dias, sentia a infinita inquietude do seu ser. Sentia como se estivesse sozinha, deitada em um barquinho que flutuava em águas verdes bem cristalinas. Quase podia ouvir o silêncio sussurrar as palavras que tanto quer dizer.
Eu me vejo na garota. Sinto o seu sufoco e partilho as palavras que não saem. A vontade do silêncio. A falta dos meus olhos me olharem com ternura. A fraqueza de não deixar o caos gritar.
sábado, 23 de julho de 2022
E agora?
Eu jurei nunca mais escrever algo que não fosse direcionado a mim. Eu jurei não amar. Jurei não ser feliz. Jurei sequer olhar para o tentar.
Mas eu falhei. Eu falhei por diversas vezes. Eu sonhei, eu desejei, eu senti o gosto da boca dela encostando na minha.
E foi fácil. Ela venceu minhas barreiras com maestria. Simplesmente chegou e colocou de lado qualquer coisa ruim. Foi fácil conversar. Foi fácil me levar pra perto. Foi fácil me fazer dela. Foi fácil me manter por perto quando o meu dilema é ir embora ao sinal de qualquer concorrência.
Foi fácil me fazer querer. Eu a quero. Quero tudo com ela. Quero fazê-la minha. Quero que seus lábios sejam meus. Quero que seu coração bata mais forte na presença do meu. Quero que sua buceta seja minha.
A quero com tudo que tenho. A quero com tudo que ela quer ser minha.
Eu jurei não querer. Mas e agora?